Eu vou-lhes contar a história de Clayson, cuja mãe insistia em chamar de “Cleyson”.
Bem o fato é que Clayson tinha este nome, pois, segundo ele mesmo gosta de contar e recontar, seu pai chamava-se Clay e por ser seu filho passou a chamar-se Clayson, que em inglês significa “filho de Clay”.
Eu sempre fui muito grato ao Clayson, pois por causa dele descobri logo cedo que “son” em inglês queria dizer filho.
- Mas você vai ou não contar minha história?
Calma Clayson eu vou contar! Aliás, vou contar uma parte dela, a final de contas esta não é uma biografia.
Vamos lá:
Clayson adorava jogar videogame e seu jogo favorito era aquele cujo herói tinha que vencer uns monstros e alcançar, depois de algumas fases, a torre do castelo para salvar a linda princesa.
Numa tarde que não sabemos muito bem se era bela ou não, pois Clayson jogava videogame com a cortina fechada por causa do reflexo que a luz externa causava na tela da televisão, tudo corria bem, até que o jogo travou.
Não havia cristão ou pagão, que conseguisse fazer com que o jogo voltasse a funcionar. O pior é que o CD não saia do console. Puxa daqui, empurra dali, cutuca de lá, o garoto acabou por desistir de resolver o problema e continuar jogando, e deitou-se um pouco para descansar. Com a penumbra que dominava toda a sala e ouvindo ainda os sons do jogo lá no fundo de sua memória, o sono foi chegando inevitavelmente...
Depois de algum tempo com o controle nas mãos Clayson constatou que o jogo voltara a funcionar e melhor ainda, os comandos pareciam bem mais fáceis, pois após alguns golpes e jogadas, mesmo sem segurar o controle, apenas com comandos mentais, seus inimigos iam sendo vencidos e o jogo seguia emocionante.
Clayson era, agora, o protagonista do jogo e sabia que tinha pouco tempo para chegar até o topo da montanha mais íngreme do mundo para salvar a bela, charmosa e delicada princesa, que, é lógico, ou provavelmente, no final da história, seria sua esposa e eles viveriam felizes para sempre...
Em sua caminhada o menino sentia-se um pouco assustado com o ambiente que até então só conhecia virtualmente. Apesar da paisagem ser belíssima com vales, montes e lagos; e bosques floridos e perfumados. Em seu caminhar deparou-se com uma jabuticabeira que estava carregada de frutos. Parou e passou a provar daquelas delícias; Enquanto comia percebeu um som e constatou que não estava só, ao virar-se para ver quem ou o que fazia aquele ruído pode ver que seu companheiro de refeição era um macaquinho muito serelepe que ao ser descoberto, fugiu entre os inúmeros galhos da enorme árvore. Sem dar importância ao animalzinho e com o apetite saciado, Clayson continuou caminhando em direção ao seu objetivo. Depois de mais algum tempo, ao atravessar uma pequena pinguela num belo riacho, ouviu um rugido e avistou uma onça e o pior é que ela vinha em sua direção. Parecia-lhe que o bicho não estava para brincadeiras, então Clayson, mais do que depressa, começou a correr, porém o animal levava vantagem já que possuía quatro pernas contra duas de nosso amigo. O medo do garoto aumentava na proporção em que diminuía a distância que o salvava de virar refeição de onça. De repente quando já se sentia sendo abocanhado pelo enorme felino, um vulto passou por ele muito rapidamente desviando a atenção da onça. Era o macaquinho serelepe que macaqueava e enfurecia ainda mais o animal que passou a segui-lo e até subiu numa pequena árvore de grossos troncos e pouca folhagem em sua perseguição. Quando já se encontrava no topo desta árvore o macaquinho parou e esperou... A onça subia lentamente em sua direção e assim que ela pulou para alcançá-lo, o macaquinho serelepe saltou para a árvore vizinha, e de lá para a outra e outra até que a onça ficou a ver navios, ou melhor, árvores sem macaquinho.
Clayson, que assistia a tudo escondido sob a pinguela, esperou até ter certeza de que não corria mais perigo e saiu. Quando já retornara o seu caminhar observou que estava sendo acompanhado pelo macaquinho. Parou e abriu os braços, no que este saltou em seu colo e ambos seguiram brincando. Depois de algum tempo caminhando juntos, seu serelepe amiguinho passou a puxá-lo insistentemente e desviá-lo do caminho que instintivamente Clayson sabia deveria ser o que os levariam até a princesa. Constatando que o macaquinho não desistiria de puxá-lo, deixou-se levar e após entrarem num bosque o garoto ouviu um relinchar tristonho e fraco. Ao defrontarem um enorme arbusto muito fechado e com galhos espinhosos, Serelepe, como o menino “batizou” seu amiguinho chamou-lhe a atenção e ele pode ver, em meio ao arbusto um cavalo deitado e todo ferido.
Era um belo animal, cujo pelo marrom e manchas brancas se tornava quase imperceptível por conta da sujeira e do sangue das feridas que conseguira ao tentar fugir daquela armadilha natural. Com muito jeito e a ajuda de Serelepe, Clayson conseguiu afastar alguns galhos e abriu uma passagem grande o suficiente por onde o cavalo, mesmo debilitado conseguiu sair. Sentindo-se em liberdade o cavalo começou a galopar em rodeios e a coicear aos ventos, porém desfaleceu de cansaço.
Assim que o cavalo levantou-se novamente, o garoto levou-o para a beira do riacho, onde lavou e tratou seus ferimentos com algumas folhas trazidas pelo macaquinho. Algumas horas depois já ia anoitecendo e os três adormeceram ali mesmo.
No dia seguinte ao acordar Clayson viu que o cavalo já se encontrava de pé e que o macaquinho serelepe estava montado em seu lombo, estendendo-lhe o braço, para que o garoto também montasse. O cavalo que fora apelidado por Clayson de malhado, partiu em direção à montanha levando seus novos amigos num galope acelerado.
A chegada ao pé do morro não poderia ter sido mais tranqüila, porém após quase um quilômetro de escalada um obstáculo intransponível se lhes surgiu no caminho.
Havia uma cratera que circundava toda a montanha e que após examiná-la em toda a sua extensão, Clayson e seus companheiros constataram exaustos que seria impossível atravessá-la por terra, pois sua profundidade era infinita...
- O desânimo só não me dominou porque eu sabia que se conseguíssemos vencer este obstáculo estaríamos a poucos galopes do topo da montanha.
- Parabéns Clayson! Sua perspicácia foi fundamental para o desfecho desta história.
E, devo admitir, Clayson realmente pensou como um verdadeiro herói e assim sendo, lhe foram atribuídos super poderes, e utilizando-se novamente do controle do videogame, conseguiu trocar alguns bônus que acumulara durante a trajetória por potentes e belas asas para seu cavalo malhado. Mas como em todas as aventuras de videogames as asas tinham um período curto para serem utilizadas e nosso amigo não perdeu tempo, juntamente com Serelepe, o macaquinho, montou seu alado cavalo Malhado e imediatamente após atravessar voando o desfiladeiro, desativou o poder das asas, e Malhado voltou a galopar, agora em maior velocidade ainda, até que chegaram ao topo da montanha onde encontraram a princesa.
Missão cumprida e princesa libertada, tudo parecia encaminhar-se para um final apoteótico. Porém eis que surge o chefão da grande montanha e desafia o filho de Clay para um duelo no qual somente quem saísse vitorioso é que poderia ficar com a princesa...
- Eu tive que adiar o beijo que daria na princesa e isso não me deixou nem um pouquinho feliz, por isso o grande Chefão, prepare-se para enfrentar um menino bastante zangado e determinado a transformar-se em herói.
- É isso mesmo, Clayson não deixou por menos...
E assim iniciou-se um dos mais difíceis desafios enfrentados por Clayson o campeão dos videogames...
O Chefão partiu para cima de Clayson que desarmado esquivava-se de seus golpes. O garoto se abaixava, pulava, corria e rolava para evitar ser atingido pelo temível Chefão. Quando constatou que não teria chances contra aquela enorme criatura, Clayson começou a correr no que fora perseguido incansavelmente. O Chefão, após encurralar o menino junto ao abismo sem fim, babava e uivava de raiva e regozijo, já que previa a própria vitória. Clayson suava frio e não tirava os olhos dos olhos da fera que preparava seu golpe final...
Uma enorme sombra encobriu nosso herói quando o Chefão pulou por sobre o menino... Clayson chegou a sentir um arrepio causado por um gélido vento que passou por ele naqueles segundos em que a tenebrosa sombra crescia sobre seu corpo... Num gesto de incrível reflexo, que só adquire quem domina os comandos do controle do Play I e II, Clayson rolou para fora do alcance da queda do Chefão. Este percebendo a manobra do menino tentou desviar seu curso no ar e desequilibrou-se caindo no abismo sem fim...
O triste e agonizante gemido que pode ser ouvido a seguir permaneceu na memória de Calyson por muito tempo, e só foi interrompido quando o menino passou a ouvir, vindo bem de longe chamarem seu nome.
O chamamento foi ficando mais e mais claro, até que Clayson despertou com sua mãe a lhe sacolejar pelos braços.
- Levanta menino, temos visitas.
Ao chegar à sala, Clayson não pode disfarçar sua surpresa, quando fora apresentado a uma prima que não via há anos...
Enquanto trocavam beijos de boas vindas ele arrepiou-se ao sentir o hálito quente da garota que agradecia por ele ter-lhe resgatado das mãos daquela terrível criatura na montanha mais alta do mundo.
FIM
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4 minutos atrás







1 comentários:
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