terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Histórias Infantis: A Borboleta Azul


Primeira parte

Havia um belo jardim onde viviam muitas borboletas, numa linda tarde de outono, duas delas muito amigas, conversavam sobre seu assunto preferido, flores. Papo vai, papo vem, a Borboleta Amarela disse para a Azul:
- Amiga, nem te conto por onde estive passeando nestes últimos dias!
- Me conta sim senhora, você sabe que eu adoro ouvir suas estórias!
- Está muito bem! Disse a borboleta Amarela; e continuou:
- Semana passada estive visitando o Lado Leste da floresta!
- O Lado Leste? Duvidou a borboleta Azul, e provocando sua amiga acrescentou:
- Dizem que inseto algum, jamais teve coragem de ir para aquelas bandas da floresta.
- Pois é querida, porém foi para lá mesmo que eu fui, o Lado Leste. Reafirmou orgulhosa a borboleta Amarela.
Curiosa e super ansiosa para conhecer em detalhes as aventuras da amiga a borboleta Azul não economizava indagações:
- Como é lá? O que há de diferente daquele lado? O que encontraste nesta viagem?...
- Calma querida amiga, vou te contar, tim-tim por tim-tim, tudo o que vi, e passei.
E assim, sem modéstia alguma, iniciou, a borboleta Amarela, seu detalhado relato:
- Aqueles foram momentos fantásticos e cheios de aventura, momentos nos quais pude visitar diferentes e magníficos jardins, voar sobre as copas de grandes e centenárias árvores, apreciar meu belo reflexo em lagos cristalinos e refrescantes... Mais, principalmente, pude ter contato com uma enorme variedade de flores, flores maravilhosas. Ressaltou:
- Flores? Interrompeu, de ímpeto, a borboleta Azul, e acrescentou entusiasmada:
- Este assunto me interessa muito.
Percebendo que despertara pra valer o interesse e aguçara ainda mais a curiosidade da amiga, a borboleta Amarela caprichou nos adjetivos e não poupou as hipérboles.
Conforme o relato se desenrolava a borboleta Azul se mostrava mais e mais extasiada com os detalhes. Quando percebeu que a amiga estava totalmente tomada pelo enredo de sua estória, a loquaz borboleta Amarela enfatizou, quase que entre aspas:
-...E foi aí que eu a conheci!
Imediatamente após esta colocação a oradora silenciou-se para poder apreciar a reação de sua ouvinte.
Durante alguns segundos o único som que se podia perceber era o do mais absoluto silêncio. Em seguida a borboleta Azul, como que despertando de um sonho, indagou:
- A conheceu? Quem? Como? De quem você está falando? O que você quer dizer com: “foi aí que eu a conheci”?
Satisfeita com o efeito causado por suas últimas palavras, a borboleta Amarela continuou:
- Sim foi neste momento mágico que eu tive o privilégio de conhecer a mais bela, interessante e misteriosa flor que já existiu nesta floresta.
- Bela, interessante, misteriosa, que flor é esta, tão especial?
- Pois é, se você quer saber, esta flor guarda um segredo que só quem a beijar ou cheirar poderá descobrir e eu, como beijoqueira que sou, não poderia perder a oportunidade de beijar esta espécie tão rara de flor, não é mesmo?
Já não se cabendo de tanta curiosidade a borboleta Azul quase que implorou:
- Pois então me conta, cara amiga, o que nos é revelado quando beijamos esta flor encantada? E, para seu desespero, a borboleta Amarela respondeu:
- Infelizmente eu não posso lhe contar!
Foi como se um vento gelado paralisasse as asas da borboleta Azul e todo seu corpo se petrificasse. Ela não podia acreditar no que acabara de ouvir e insistiu em tom desesperador:
- Por favor, amada amiga, em nome de nossa antiga amizade e de todos os momentos que já voamos juntas, conta vai...
- Nem pensar, este segredo deverá ser guardado por conta de um pacto que se faz com a flor o Lado Leste.Todos que a beijarem ou cheirarem e que conhecerem seu mistério somente poderão comentar sobre isto com outros que igualmente passaram pela mesma experiência.
A borboleta Azul, a partir deste instante, passou para um estado depressivo que contrastava radicalmente com o seu entusiasmo anterior. Ficou tão triste e chorosa que quase não conseguia pronunciar palavra. Mesmo assim fixou seu olhar mareado nos olhos da amiga e indagou em soluços:
- Então o que devo eu fazer para saber o final desta estória, para conhecer o mistério desta tal Flor do Leste.
- Só há uma maneira! Sentenciou a borboleta Amarela:
- Você terá que ir até lá e conhecê-la pessoalmente!
Segunda parte

Conhecer e beijar a Flor do Leste até que poderia ser bastante aprazível, pensou a borboleta Azul, porém o fato é que ela sempre fora avessa a mudanças, fossem quais fossem. Nunca lhe apetecera sair da rotina de seu jardim e enveredar-se por caminhos novos e desconhecidos. A grande verdade é que ela era bairrista e muito acomodada. Além de que, enfrentar desafios não lhe parecia muito atrativo.
Então, o que estaria acontecendo com nossa amiga, posto que ela estava começando a sentir-se um pouco incomodada com a idéia de nunca vir a conhecer a tal flor e o tal segredo. Um leve ardor fazia latejar as pontas de suas sensíveis asas e uma repentina vontade de viajar lhe acelerava o coração.
E foi com uma coragem que surpreendeu até a ela mesma, que a borboleta Azul questionou a amiga:
- Você pode ao menos me indicar o caminho que leva até a Flor do Leste?
Tentando não demonstrar a surpresa com que recebeu esta indagação, a borboleta Amarela disse:
- Muito bem, amiga. È assim que se fala, já está passando da hora de você deixar este jardim e, mesmo que por pouco tempo, conhecer outras paragens. Eu vou detalhar todo o trajeto que você deverá percorrer em um mapa que a levará ao seu objetivo sem dificuldades.
E assim, mapa nas patas e mochila entre as asas lá se foi a borboleta Azul. Sem deixar que aqueles sentimentos de medo e insegurança a impedissem, seguiu firme seu primeiro vôo para fora dos arredores de seu tão conhecido e acolhedor jardim.
Conforme se distanciava de seu território, a insegurança que lhe acompanhava desde antes de sua partida ia se lhe abandonando e dando lugar a uma espécie de sentimento de poder e uma vontade muito grande de conhecer novos horizontes. Ela passou a querer realizar conquistas até então inimagináveis para um inseto tão conservador.
Depois de algum tempo de vôo, já se sentindo mais segura e descontraída, percebeu uma leve brisa a lhe resfriar as asas. Esta sensação que a princípio era bastante agradável foi ficando cada vez mais intensa, mais intensa; e tão mais intensa, que passou a incomodá-la. De repente, um vento muito forte começou a soprar e a pequenina borboleta foi levada para o interior da mata fechada “atropelando” galhos, folhas e espinhos de todas as espécies. Na tentativa de se desvencilhar deste aprisionamento imposto pela corrente de ar ela se enroscou em um espinheiro e teve sua asa esquerda perfurada. A dor causada pelo impacto fê-la cair desacordada...
...Algum tempo depois se recuperando do susto, mais ainda com muita dor, conseguiu reiniciar sua viajem. Por conta do ferimento, diminuiu a velocidade de seu vôo e passou a voar mais próxima ao gramado e, vez por outra pousava em uma flor para repor a energias com néctar. A noite chegou e nossa amiga pode então descansar, repousando em uma bela e aconchegante dália.
Na manhã seguinte despertou sentindo-se bem melhor, a asa já não doíam mais, então seguiu seu trajeto, sempre consultando o mapa que sua amiga Amarela lhe preparara, aliás, pelo que o mapa indicava, não demoraria muito, e ela estaria frente a frente com a Flor do Leste.
Com a expectativa do encontro, seu vôo passou a ser mais leve e prazeroso. Assim, a borboleta Azul voltou a descansar distraidamente, seus olhos nas belezas do lugar. Tão distraída ela ficou que, em determinado momento, avistando um filhote de onça pintada, nem reparou que ele vinha em sua direção.
A oncinha vendo aquela linda borboleta a bailar no céu bem na sua frente, logo quis brincar de pega-pega e com suas poderosas patinhas peludas e de unhas afiadíssimas começou a desferir inocentes golpes para tentar pegá-la. Quando a primeira patada passou rente a borboletinha ela, com o vácuo, se desequilibrou dando várias piruetas que a deixaram tonta; retomando pé da situação nossa amiga tentava fugir dos golpes, cada vês mais freqüentes e poderosos. O ataque vinha ora pela esquerda, ora pela direita, quando não, por ambos os lados e com a duas patas se fechando muito próximas de seu corpo, obrigando-a a manobras nunca antes realizadas por ela. Num momento de vacilo da oncinha a borboleta Azul conseguiu penetrar por entre os galhos, folhas e espinhos de um roseiral, deixando para trás a oncinha triste por não ter mais com quem “brincar”.
Passado o susto e de volta ao trajeto original, a borboleta Azul pasmou boquiaberta ao se deparar com tal maravilha! Era a mais bela e exótica flor que ela já vira em toda a sua vida. As pétalas dum vermelho vivo que saiam daquele forte e viçoso caule verde musgo, balançavam como se dançassem ao ritmo da brisa morna do entardecer. Todo este balancear atraiu nossa amiga, que em estado de transe, entregou-se à Flor do Leste num longo e demorado beijo que lhe desvendou todo o segredo até então proibido...
...De volta ao seu antigo e amado jardim, o reencontro das amigas foi emocionante. Ambas conversaram durante horas, e ao mesmo tempo em que relatava suas aventuras à amiga Amarela, a borboleta Azul refletia sobre todo o período que passara viajando e vivendo aquelas experiências de perigos e prazeres. Lembrou do beijo que deu na Flor do Leste, do pacto feito com ela, do segredo que lhe fora revelado...
E, por fim, percebeu que sua vida, desde que ela tivera a coragem de aceitar o desafio de enfrentar seus medos para realizar um desejo, passou por uma profunda metamorfose.
Hoje em dia ela se vê, e vê o mundo com os olhos de uma borboleta segura de si e que sabe, que o segredo do bem viver e ser feliz é ter coragem de aceitar as mudanças que a vida nos sugere e abrir nossa mente e coração para entrarmos em contato com mistérios, desafios, decepções, medos e até perigos, pois o conhecimento nos trás, além da responsabilidade da razão, também a capacidade de não termos receio de sermos felizes.

FIM

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